Tive a honra de palestrar no Road Show dos Vinhos
Portugueses em Florianópolis. A palestra
incluiu vinhos de quatro regiões: Douro, Beira Interior, Península de Setúbal e
Alentejo. Eles foram harmonizados com três preparos da culinária catarinense,
típica e contemporânea: Pastel de Berbigão, um clássico do litoral; Entrevero Serrano,
receita das altitudes catarinenses, e Cordeiro ao Vinho Tinto, esse, um preparo
com moldura contemporânea. Além da qualidade, ficou demonstrado que os vinhos
portugueses, dentro de suas diferentes faixas de preço e em sua rica
diversidade, são excelentes companheiros para culinária brasileira.
A degustação começou com dois brancos: o Terras d’ Uva 2013,
Vinho Regional Alentejano da Herdade da Mingorra, sem passagem por barricas,
elaborado com as castas Antão Vaz, Arinto e Verdelho; e o Catarina 2014, Vinho
Regional da Península de Setúbal, produzido pela Bacalhôa Vinhos com as
variedades Fernão Pires, Chardonnay e Arinto. A Chardonnay fermentou e estagiou
por 5 meses em barricas novas de carvalho francês. Dois brancos surpreendes,
pelo que custam. Vinhos com estilos próprios e diferentes entre si.
O Terras d’Uva revelou grande frescor, mineralidade, fruta e
notas florais. Amplo em boca, ele apresentou-se como um agradável companheiro
para o Pastel de Berbigão. O Catarina foi outra deliciosa surpresa. Fresco, com
fruta elegante e maciez vinda da passagem da parcela de Chardonnay por
barricas, o vinho apresentou camadas de aromas que lembraram mel, especiarias
doces e um toque de madeira. Os dois vinhos tinham acidez capaz de desfazer a
untuosidade da fritura e do recheio do pastel. E também teor alcoólico para
limpar e preparar o palato para a próxima mordida. O Terras d’ Uva, mais fresco,
o Catarina mais macio. Em seus estilos diversos, ambos combinaram muito bem com
o pastel de berbigão.
Vieram então os tintos. O primeiro deles foi o Quinta do
Vallado Touriga Nacional Douro Tinto 2012, um vinho perfumado, com aromas de
frutas vermelhas maduras, especiarias e delicioso floral, remetendo a violetas,
além de notas de chocolate. A passagem de 16 meses por barricas, 30% novas, não
apagou a fruta e o floral. Um vinho de cor púrpura, belo exemplar de Touriga
Nacional. O segundo, o Beyra Superior 2012, foi elaborado com as castas Tinta
Roriz, Jaen, Touriga Nacional e Rufete plantadas a 700 metros de altitude, na
Beira Interior. O vinho tem passagem de um ano por barricas e é do produtor Rui
Roboredo Madeira.
O casamento do Entrevero Serrano com ambos ficou
interessante. A boa acidez e os taninos finos dos dois vinhos limparam o palato
de gorduras e untuosidade. A elegante aromaticidade da Touriga emoldurou as
notas vegetais do pimentão, notas doces da cebola e o perfume das carnes
bovina, suína e da linguiça. No caso do Beyra Superior, os aromas lembrando
frutas negras e alcaçuz formaram um conjunto aromático diferente da Touriga. Não
menos saboroso.
Os dois últimos tintos foram combinados com um prato
catarinense contemporâneo, o Cordeiro ao Vinho Tinto.
O Quinta do Granjal Douro DOC 2012 mostrou seu potencial e
longevidade. Ainda novo, estava bastante fechado. Foi preciso decanta-lo para
começar a mergulhar nas camadas aromáticas do vinho, elaborado com as uvas
Touriga Nacional e Touriga Franca do Douro Superior, com passagem de 12 meses
por barricas de carvalho. E elas foram se abrindo: frutas vermelhas e negras,
especiarias, baunilha, chocolate, notas minerais. Na boca, revelou acidez na
medida, maciez e muita estrutura, com final longo. Um vinho para anos de
guarda.
O último do tinto veio do Alentejo, do produtor Júlio
Bastos. Foi o Dona Maria Amantis Reserva 2009, um corte, em proporções iguais,
de Syrah, Petit Verdot, Cabernet Sauvignon e Touriga Nacional, com passagem de
um ano por barricas, sendo 70% francesas e 30% americanas. Um vinho de cor
densa, com aromas de frutas negras, especiarias, chocolate, coco, bastante
complexo. E boca com excelente acidez, maciez, taninos finos e final muito
longo.
Os dois vinhos acompanharam bem o Cordeiro ao Vinho Tinto.
Ambos têm acidez, alcoolicidade e taninos na medida para limpar o paladar de
untuosidades e gordura. E rica aromaticidade para combinar com os perfumes do
preparo.
Foi uma pequena mostra das possibilidades de harmonização de
pratos catarinenses e consequentemente brasileiros, com vinhos de Portugal.
Como disse, uma pequena mostra. Dentro da tamanha variedade de cortes e
varietais feitos com as mais de 300 castas portuguesas, em dezenas de
microterroirs, é possível encontrar vinhos de diferentes regiões que combinam
com a culinária do mar, das serras e do interior das várias regiões
brasileiras. Um passeio por muitos aromas e sabores da terra e de além mar.


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