terça-feira, 14 de julho de 2015

Vinhos portugueses e culinária brasileira





Tive a honra de palestrar no Road Show dos Vinhos Portugueses em Florianópolis.  A palestra incluiu vinhos de quatro regiões: Douro, Beira Interior, Península de Setúbal e Alentejo. Eles foram harmonizados com três preparos da culinária catarinense, típica e contemporânea: Pastel de Berbigão, um clássico do litoral; Entrevero Serrano, receita das altitudes catarinenses, e Cordeiro ao Vinho Tinto, esse, um preparo com moldura contemporânea. Além da qualidade, ficou demonstrado que os vinhos portugueses, dentro de suas diferentes faixas de preço e em sua rica diversidade, são excelentes companheiros para culinária brasileira.

A degustação começou com dois brancos: o Terras d’ Uva 2013, Vinho Regional Alentejano da Herdade da Mingorra, sem passagem por barricas, elaborado com as castas Antão Vaz, Arinto e Verdelho; e o Catarina 2014, Vinho Regional da Península de Setúbal, produzido pela Bacalhôa Vinhos com as variedades Fernão Pires, Chardonnay e Arinto. A Chardonnay fermentou e estagiou por 5 meses em barricas novas de carvalho francês. Dois brancos surpreendes, pelo que custam. Vinhos com estilos próprios e diferentes entre si.

O Terras d’Uva revelou grande frescor, mineralidade, fruta e notas florais. Amplo em boca, ele apresentou-se como um agradável companheiro para o Pastel de Berbigão. O Catarina foi outra deliciosa surpresa. Fresco, com fruta elegante e maciez vinda da passagem da parcela de Chardonnay por barricas, o vinho apresentou camadas de aromas que lembraram mel, especiarias doces e um toque de madeira. Os dois vinhos tinham acidez capaz de desfazer a untuosidade da fritura e do recheio do pastel. E também teor alcoólico para limpar e preparar o palato para a próxima mordida. O Terras d’ Uva, mais fresco, o Catarina mais macio. Em seus estilos diversos, ambos combinaram muito bem com o pastel de berbigão.

Vieram então os tintos. O primeiro deles foi o Quinta do Vallado Touriga Nacional Douro Tinto 2012, um vinho perfumado, com aromas de frutas vermelhas maduras, especiarias e delicioso floral, remetendo a violetas, além de notas de chocolate. A passagem de 16 meses por barricas, 30% novas, não apagou a fruta e o floral. Um vinho de cor púrpura, belo exemplar de Touriga Nacional. O segundo, o Beyra Superior 2012, foi elaborado com as castas Tinta Roriz, Jaen, Touriga Nacional e Rufete plantadas a 700 metros de altitude, na Beira Interior. O vinho tem passagem de um ano por barricas e é do produtor Rui Roboredo Madeira.



O casamento do Entrevero Serrano com ambos ficou interessante. A boa acidez e os taninos finos dos dois vinhos limparam o palato de gorduras e untuosidade. A elegante aromaticidade da Touriga emoldurou as notas vegetais do pimentão, notas doces da cebola e o perfume das carnes bovina, suína e da linguiça. No caso do Beyra Superior, os aromas lembrando frutas negras e alcaçuz formaram um conjunto aromático diferente da Touriga. Não menos saboroso.

Os dois últimos tintos foram combinados com um prato catarinense contemporâneo, o Cordeiro ao Vinho Tinto.

O Quinta do Granjal Douro DOC 2012 mostrou seu potencial e longevidade. Ainda novo, estava bastante fechado. Foi preciso decanta-lo para começar a mergulhar nas camadas aromáticas do vinho, elaborado com as uvas Touriga Nacional e Touriga Franca do Douro Superior, com passagem de 12 meses por barricas de carvalho. E elas foram se abrindo: frutas vermelhas e negras, especiarias, baunilha, chocolate, notas minerais. Na boca, revelou acidez na medida, maciez e muita estrutura, com final longo. Um vinho para anos de guarda.

O último do tinto veio do Alentejo, do produtor Júlio Bastos. Foi o Dona Maria Amantis Reserva 2009, um corte, em proporções iguais, de Syrah, Petit Verdot, Cabernet Sauvignon e Touriga Nacional, com passagem de um ano por barricas, sendo 70% francesas e 30% americanas. Um vinho de cor densa, com aromas de frutas negras, especiarias, chocolate, coco, bastante complexo. E boca com excelente acidez, maciez, taninos finos e final muito longo.

Os dois vinhos acompanharam bem o Cordeiro ao Vinho Tinto. Ambos têm acidez, alcoolicidade e taninos na medida para limpar o paladar de untuosidades e gordura. E rica aromaticidade para combinar com os perfumes do preparo.

Foi uma pequena mostra das possibilidades de harmonização de pratos catarinenses e consequentemente brasileiros, com vinhos de Portugal. Como disse, uma pequena mostra. Dentro da tamanha variedade de cortes e varietais feitos com as mais de 300 castas portuguesas, em dezenas de microterroirs, é possível encontrar vinhos de diferentes regiões que combinam com a culinária do mar, das serras e do interior das várias regiões brasileiras. Um passeio por muitos aromas e sabores da terra e de além mar.




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