Abri, esta semana, uma garrafa do Merlot Kranz 2008. O vinho
estava interessante. Cor rubi com notas de evolução, nariz com fruta não tão
evidente, mas com um bom leque de outros aromas. Entre eles, notas florais,
balsâmicas, de ervas em infusão, resina de pinheiro, tostados e especiarias. Na
boca, a fruta apareceu na forma de uma acidez agradável, em equilíbrio com os
taninos macios. Com sete anos de produção, o vinho estava íntegro.
Uso esse Kranz Merlot 2008 para falar um pouco da
longevidade dos vinhos das altitudes, no caso, de Santa Catarina. Acompanhei de
perto o desenvolvimento da vitivinicultura da região, comprei várias garrafas,
bebi algumas, guardei outras. Nos primeiros anos, principalmente os varietais
ou cortes à base de Cabernet Sauvignon, a uva mais plantada e vinificada na região, apresentaram-se mais duros, austeros, com
taninos, acidez e álcool mais destacados. E às vezes com notas vegetais mais
presentes. Com os anos de garrafa eles foram amaciando, arredondando. Com base
nas garrafas que degustei ao longo de alguns anos, posso afirmar que o tempo
revela a capacidade de guarda e contribui muito para a evolução desses vinhos catarinenses de altitudes.
Boas surpresas.
Pude ver isso, por exemplo, no Leopoldo 2006. Este, tomei no
ano passado, um vinho, à época, com oito anos de produção. Assim como o Kranz,
ele apresentava notas balsâmicas, tostados, aromas de especiarias doces e
picantes e a presença de fruta negra intensa no nariz. Em boca estava redondo,
como bom equilíbrio entre acidez, álcool e taninos. Estava muito agradável.
Outros rótulos levaram-me a essa constatação. O Sanjo
Maestrale 2006 entra na lista. Tomei a última garrafa que tinha da safra 2006 no
final do ano passado. A cor mantinha o rubi, os aromas frutados estavam
presentes ao lado de notas de especiarias, resina e madeira. Boa acidez e
taninos macios mostravam equilíbrio em boca. O Suzin Cabernet Sauvignon, da Vinícola
Suzin, e o Além Mar, da Villaggio Grando, ambos da safra 2008, mostraram-se
plenos quanto os provei pela última vez, há um ano e meio. Poranto, com mais de
seis anos de garrafa.
Recentemente entrevistei o enólogo Adriano Miolo, da Miolo
Wine Group. Na conversa, falávamos sobre a Cabernet Sauvignon. Vinhos
elaborados com a casta em regiões como a serra de Santa Catarina e os Campos de
Cima da Serra, no Rio Grande do Sul, mostram-se encorpados e estruturados. Mas
não ficam prontos quando jovens. “Eles melhoram com o envelhecimento”, observou
Adriano, na conversa.
Os vinhos de Merlot já se apresentam mais prontos nos
primeiros anos. Mas, nas altitudes catarinenses, mostram também vocação para o
envelhecimento. É uma casta que todos dizem ser potencial nas altitudes. Mas
pouca gente vinifica solo, a variedade é mais utilizada em cortes.
Novas uvas
prometem essa mesma performance. Entre elas a Sangiovese (o Michelli 2006 da
Villa Francioni, cuja última garrafa provei também há um ano meio, mostrou-se
firme, estruturado e elegante) e a Montepulciano.
Assim, quem tem vinhos tintos da serra de Santa Catarina e
não precisa ter pressa para bebe-los, vale guardá-los por alguns anos. O
resultado e a paciência podem trazer agradáveis recompensas.

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